Domingo, Novembro 08, 2009

Treta da semana: radioactividade criacionista.

Os criacionistas queixam-se que não os deixam publicar a sua "investigação" em revistas científicas. É por isso que precisam ter as suas próprias publicações, como a Creation Research Society Quarterly. Em Março de 1982 publicaram um artigo do Everett H. Peterson intitulado «Creation, why and how?». Não me parece misteriosa, nem indicativa de conspiração, a rejeição destas explicações por parte de revistas científicas legítimas:

«When God the Son squeezed energy into atoms, he squeezed and held the atom so tightly that there were no unstable elements and therefore no radioactivity. At the fall [of Adam and Eve], He relaxed His grip slightly ... which affected every atom and allowed some to become unstable, i.e., radioactivity!»(1)

Infelizmente, só consegui acesso ao resumo do artigo. Mas é elucidativo. Uma conclusão importante deste autor é que a origem da radioactividade é a vaidade.

«In this article the question: Creation-Why? is examined; and it is concluded, among other things, that the second law of thermodynamics was put into operation as soon as Creation was complete. The question: Creation-How? is also examined; and it is suggested that one of the results of making creation subject to vanity (Romans 8:20) at the fall was radioactivity.»(2)

Se conseguíssemos aproveitar esta relação entre vaidade e radioactividade penso que, entre a Lili Caneças e o José Castelo Branco, Portugal conseguia a independência energética. É claro que, provavelmente, ficávamos todos com cancro...

1- Evolution vs. Creationism, The Saladin-Gish II Debate (1988), Opening Statement for the Affirmative.
2- CRS Quarterly, Volume 18, Number 4, March, 1982.

Relacionamentos e margens de erro.

Quando era miúdo tive uma professora de português de quem não gostava nada. A princípio. Mas, num momento de inspiração, ocorreu-me que aquilo de que eu não gostava era apenas uma ideia. Todo esse meu desagrado tinha por objecto a opinião que eu formara acerca de alguém que mal conhecia. A epifania serviu de imediato para tornar aquelas aulas muito mais suportáveis. E, a longo prazo, além de ainda me lembrar o que é o pretérito imperfeito do conjuntivo, tem me ajudado muito recordar que, salvo raras excepções, a ideia que formo das pessoas tem uma grande margem de erro. Há muito pouca gente na nossa vida que conheçamos suficientemente bem para ignorar lacunas na informação e estimativas erradas.

No relacionamento com os outros podemos assumir que os juízos que fazemos são fiáveis e evitar desilusões julgando os outros de forma mais pessimista. Ou podemos assumir o melhor das outras pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida dentro da margem de erro e precavermo-nos contra dissabores tendo consciência que esse juízo é muito incerto. A experiência com a professora de português levou-me a optar pela segunda alternativa. É mais agradável, e mais justo, desconfiar da minha capacidade de julgar os outros em vez de ser pessimista acerca das pessoas.

Por isso concordo, em parte, com o que me descrevem os crentes quando dizem confiar no seu deus. Dão-lhe o benefício da dúvida. Se não conhecemos alguém, podemos assumir que é boa gente. Mas só concordo em parte porque é preciso considerar que podemos formar um juízo errado. Se um estranho me toca à porta eu assumo que é boa pessoa e incapaz de maltratar crianças. Mas como posso estar enganado acerca disto não vou deixar que leve os meus filhos a passear sem mais informação que reduza a tal margem de erro. Para isso já tem de ser alguém que eu conheça o suficiente para que, além da confiar que é boa pessoa, também confie nesse juízo que fiz dele.

E é nisto que os crentes se espalham. A religião, dizem-me, é uma relação com Deus. Ou com um deus, pelo menos. É confiar nesse deus. Mas o que quer que sintam por esse deus será sempre função da ideia que formaram dele. Ou dela. E o problema é não terem qualquer informação onde basear essa ideia. Eu, ao menos, tinha aulas com a professora de português. Não era suficiente para saber se era boa ou má pessoa, mas sempre sabia alguma coisa acerca dela. E neste universo não se vê vestígio de qualquer divindade. Tudo o que se pensava indicar intervenção divina tem vindo a desaparecer, como a magia do ilusionismo quando se explica o truque. Acerca do deus, da deusa ou dos deuses, nenhum religioso tem informação. Só especulação.

Por isso não me convencem quando dizem que se tem de interpretar o Antigo Testamento de uma maneira especial por esse deus não ser como os hebreus julgavam. Concordo que o Antigo Testamento relata o relacionamento dos hebreus com o seu deus, e que o relacionamento dos católicos com o deus católico é diferente daquele que os hebreus tinham com o seu. O dos católicos é chatinho mas é menos ameaçador, se descontarmos a tortura eterna com que castiga quem discorde dele. Mas ninguém, nem católicos, nem hebreus, nem seja quem for, faz ideia de como Deus é. Não se sabe sequer se existe tal coisa, quanto mais saber o que quer, o que manda, de que gosta ou desgosta ou como se deve interpretar o que se escreve acerca dele.

Em suma, até compreendo que queiram confiar num deus. Quando não tenho informação em contrário acerca de alguém também prefiro pensar que é boa pessoa. Mas neste caso é um exagero. A ideia que fazem do respectivo deus – e, no fundo, é sempre com a ideia que nos relacionamos – é fruto unicamente da imaginação dos crentes. Nem sequer é alguém que encontrem de vez em quando, nas aulas de português ou assim, porque na missa só está lá o padre e o cenário. Se estivesse lá um deus notava-se bem.

E este exagero nem é o pior. Na verdade, se é exagero ou não é um juízo subjectivo, e admito podermos discordar disto por divergências de valor. É legítimo alguém querer confiar tanto num ser que até confia, sem evidências, que esse ser existe. É estranho, mas está no seu direito. O que é objectivamente incorrecto é ignorar a margem de erro. Que é enorme. Infinita. Todas as religiões que há, que houve e que algum dia inventem cabem nessa margem de erro, porque não há quaisquer dados que a reduzam.

Daí que as minhas críticas não sejam por crerem, ou quererem confiar, naquilo que nem sabem se existe. O que critico é dizerem que sabem. Que sabem que deus é assim e assado, que aquele trecho deve ser interpretado daquela maneira, que condena o preservativo, transubstancia a hóstia, engravidou Maria e milhentos outros pontos tirados ao acaso do grande chapéu das margens de erro. O que critico é venderem erro como se fosse conhecimento.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Miscelânea criacionista: o sexo.

O Mats comentou assim este boneco: «Palavras para quê? É a teoria da evolução.»(1)

sapo

Por esta altura o Mats com certeza já sabe que a teoria da evolução descreve como variam as características de populações de geração em geração, e que é disparate falar da evolução de indivíduos. Mas se bem que este comentário do Mats seja mais decepção que ignorância*, a confusão que o sexo faz aos criacionistas deve-se, principalmente, à falta de conhecimento. Os criacionistas imaginam que a reprodução ou é assexuada ou há macho e fêmea que precisam um do outro para se reproduzir. Sem olhar para a natureza, são incapazes de imaginar como a evolução gradual pode ir de um sistema ao outro. Felizmente, nem todos estamos limitados àquele livrinho.

As bactérias não fazem sexo mas têm partes do mecanismo molecular da reprodução sexuada. Conseguem incorporar ADN do meio onde se encontram (transformação), partilhá-lo com outras bactérias (conjugação) ou receber ADN transportado por vírus (transdução). Na verdade, o difícil é impedir esta promiscuidade pois, sendo todos os organismos aparentados, o ADN de um organismo normalmente funciona nos outros. Por isso é que as bactérias também têm enzimas de restrição, para destruir ADN indesejado.

As bactérias têm também enzimas para recombinar o ADN(2). A recombinação é um passo crucial na reprodução sexuada, trocando partes dos cromossomas que o organismo herdou dos pais. Este baralhar dos genes torna os filhos diferentes entre si e diferentes dos pais, com um número astronómico de combinações possíveis. Mas nas bactérias, que não têm sexo, a recombinação já há muito tempo serve para integrar genes "importados" e reparar trechos danificados de ADN substituindo-os por cópias funcionais. Numa jogada típica da evolução, a reprodução sexuada aproveitou para os seus fins mecanismos que já desempenhavam outras funções.

Os criacionistas também imaginam que a reprodução sexuada exige que um indivíduo nasça com o sexo determinado nos genes, talvez por Deus, e só se possa reproduzir com um indivíduo do sexo oposto. Mas há muitas alternativas. O sexo dos crocodilos é determinado pela temperatura de incubação do ovo (3). Em muitas espécies de plantas e de peixes, os indivíduos mudam de sexo ao longo da vida (4), e nos invertebrados é comum não haver distinção entre machos e fêmeas, sendo todos hermafroditas. Na verdade, a reprodução sexuada depende apenas de dois processos fundamentais: a fusão de duas células, cada uma com uma cópia de cada cromossoma (fertilização), e a posterior divisão de células com duas cópias de cada cromossoma em células só com uma cópia (meiose). De resto vale tudo, dando à evolução uma grande margem de manobra para inventar e reinventar o sexo. Ou desistir dele.

Maria ficou famosa porque a partenogénese é muito rara nos mamíferos. Mas, fora deste pequeno grupo, muitos animais abandonaram esse pecado (pouco) original: várias espécies de lagarto, insectos, aracnídeos (5) e até alguns tubarões (6). Os protozoários do filo Rotifera fizeram-no em massa, com 2200 espécies conhecidas sem pingo de malandrice.

A evolução da reprodução sexual é um mistério intrigante. Mas não por esta caricatura criacionista, do primeiro macho à espera que a fêmea evolua. Nem por falta de oportunidades para um processo gradual transformar em sexo os mecanismos de reparação e partilha de genes de seres assexuados primitivos. O que intriga é que vantagens possam compensar o custo, para cada progenitor, de transmitir às gerações seguintes apenas metade dos seus genes em vez de todos como faz quem se reproduz sem sexo. Há várias hipóteses, desde compensar mutações nefastas a reparar o ADN até a protecção contra parasitas (7). Mas há ainda muito para fazer até se ter uma ideia concreta e devidamente fundamentada dos factores que levaram à origem e, especialmente, à preservação desta forma de reprodução.

No entanto, esta é mais uma de muitas questões que não se responde satisfatoriamente com um "porque Deus quis". E a mais que isso a bíblia dos criacionistas já não chega.

* O Mats até foi buscar o desenho a um post de um criacionista, Ray Comfort, a negar ter dito precisamente aquilo que o Mats insinua: Here we go again...

1- Mats, Macho e Fêmea
2- Robert Winning, Bacterial Recombination
3- Wikipedia, Temperature-dependent sex determination
4- Wikipedia, Hermaphrodite, Sequential hermaphrodites
5- Wikipedia, Parthenogenesis
6- Washington Post, Female Sharks Can Reproduce Alone, Researchers Find
7- Wikipedia, Evolution of sexual reproduction

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Democracia.

Em 2007 os EUA, a Comunidade Europeia, a Suíça e o Japão começaram a negociar o Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA)(1). O projecto foi iniciado pela Global Business Leaders' Alliance Against Counterfeiting, uma associação representando os interesses de várias empresas multinacionais (2), e todas as negociações têm decorrido em segredo. Os parceiros agora incluem a União Europeia e vários outros países, como a Austrália, o Canadá e a Coreia do Sul, onde decorre este mês a sexta ronda de negociações.

Só por fugas não autorizadas é que tem saído informação acerca do ACTA, pois os governos envolvidos recusam revelar o que estão a negociar em nosso nome. Segundo as últimas, a ronda de negociações que agora decorre inclui medidas como criminalizar a violação de copyright mesmo sem fins lucrativos, responsabilizar os provedores de acesso ou hospedagem de conteúdos pela violação de copyright por parte dos seus clientes, obrigar o corte de acesso à Internet no caso de queixas pelos detentores de copyright e proibições obrigatórias a qualquer forma de contornar sistemas de protecção de cópia (DRM).

Se isto for para a frente, usar uma câmara de vídeo para gravar um filme no cinema será um crime, com pena de prisão. Serviços como o YouTube ou o Blogger desaparecerão, pois nenhuma empresa poderá comportar os custos de se responsabilizar por todas as violações de copyright que ocorram nestes meios. Muitas pessoas ficarão com um acesso restrito à cultura, informação e sociedade – incluindo serviços públicos – só porque o filho ou neto descarregou um mp3. E a legislação dos direitos de cópia irá ser ainda menos um sistema de incentivo à criatividade e cada vez mais uma marreta para bater em tudo o que possa fazer concorrência às editoras. Precisamente como as empresas querem.

É provável que estejam a tentar levar isto longe demais e acabe por não ir a lado nenhum. Há limites para as alterações à lei que se pode obrigar com um acordo secreto entre interesses económicos e governos, sem um processo aberto de discussão e aprovação por representantes eleitos. Mas também é possível que consigam criar com isto um processo legislativo à margem da democracia, onde empresas multinacionais escolhem as leis que querem, meia dúzia de tipos de fatinho assinam à porta fechada e nós só sabemos o que se passou quando recebemos a notificação do tribunal.

O melhor é fazer já barulho, a ver se é possível travar o ACTA antes que nos trame a todos.

Mais sobre isto:
Cory Doctorow, no BoingBoing, Secret copyright treaty leaks. It's bad. Very bad.
Michael Geist, The ACTA Internet Chapter: Putting the Pieces Together, e ACTA Negotiations, Day Two: What's On Tap.
EFF, Leaked ACTA Internet Provisions: Three Strikes and a Global DMCA

1- Wikipedia, ACTA
2- Mark Harris, Submission on the Proposed Anti Counterfeiting Trade Agreement

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Distributed Hash Tables.

Para guardar registos de pessoas podemos usar 26 pastas, separando as folhas pela primeira letra do apelido, por exemplo. Isto facilita a tarefa de encontrar um registo porque só precisamos procurar entre os que começam pela mesma letra. Mas isto é pouco eficiente porque há letras muito mais frequentes que outras. Algumas pastas vão ficar mais grossas, dar mais trabalho a percorrer e, porque é mais comum que os apelidos comecem com essas letras, será nessas pastas que vamos encontrar a maior parte dos nomes que tivermos de procurar.

A pesquisa é mais eficiente se distribuirmos melhor os registos. É aqui que entram as funções hash, para fazer batata-palha das regularidades que desequilibram o arquivo. Por exemplo, podemos converter cada letra num número, com o A correspondendo a 1, o B a 2 e assim por diante, somar os valores de todo o nome e calcular o resto da divisão por 26. O número resultante, de 0 a 25, indica em que pasta guardar aquele registo*. Assim a distribuição pelas pastas será mais uniforme, poupando trabalho na pesquisa. É claro que, para nós, fazer estas contas dá mais trabalho que procurar folhas nas pastas. Para o computador já não e, por isso, as tabelas de dispersão (hash tables) servem principalmente para organizar informação digital. Mas, para este post, o que interessa é a ideia.

E uma coisa boa nesta ideia é que a tabela pode ser distribuída. Em vez de uma pessoa ter as pastas todas podemos dá-las a um grupo de pessoas. Cada uma tem um número aleatório de 0 a 25 e guarda as pastas que ficam mais próximas do seu número que do número de qualquer outro participante. Além disso, cada participante sabe o telefone da pessoa com o número mais próximo acima do seu e da pessoa com o número mais próximo abaixo do seu, imaginando que o circulo dá a volta no 25, recomeçando do zero. Assim temos um anel telefónico de várias pessoas, cada uma com o contacto dos seus dois vizinhos.

Para consultar um registo nesta tabela distribuída calculamos o valor do hash do nome. O tal número de 0 a 25. Depois telefonamos a qualquer uma destas pessoas. Essa vê se o valor corresponde a uma das suas pastas. Se corresponder, dá-nos a informação que queremos. Se não corresponder, passa a chamada para o vizinho cujo número estiver mais próximo do hash que lhe demos. Este fará o mesmo até a chamada chegar a quem tem a pasta certa.

Se em vez de pessoas usarmos computadores, ainda melhor. Podemos ter uma função de hash com números maiores. Tipicamente, em vez de 26 valores são números com cinquenta dígitos. Assim cada valor corresponde a uma única entrada na tabela, em vez de uma pasta inteira. O reencaminhamento das mensagens é automático e praticamente instantâneo, pela Internet. Cada computador pode guardar não só os contactos dos seus vizinhos mais próximos mas também vários outros, acelerando a pesquisa. Com informação redundante, tendo vários computadores guardando os mesmos dados, sempre que um desaparece da rede a falha pode ser colmatada pelos vizinhos, trocando os dados necessários para manter toda a tabela disponível. E quando entra um participante novo, procura um cantinho onde se meter e os seus vizinhos dão-lhe uma parte da tabela para guardar.

É isto que está a tramar as editoras de discos e filmes. Quando alguém quer partilhar um ficheiro, o seu programa calcula o hash e gera uma ligação que pode ser publicada em qualquer sítio. Por exemplo, este é o URI ed2k de um ficheiro do filme District 9:

ed2k://|file|District_9_(2009).R5.avi|1474425934|F13EBED7C5C94A19D7872680A20BAD10|/

A primeira parte é o nome do ficheiro, que pouco importa porque o hash é calculado pelo ficheiro em si. Em seguida o tamanho em bytes e, no fim, o hash identificando este ficheiro na rede ed2k. Quem tiver este ficheiro em partilha – com a devida autorização dos detentores de direito e a bênção dos mapinetas, é claro – envia para a rede uma mensagem com o seu endereço e o hash do ficheiro. Esta é reencaminhada até ao computador que, naquele momento, tiver a seu cargo a gama de valores que inclui este hash. É esse computador que vai também receber todos os pedidos de quem quiser o ficheiro, pondo-os assim em contacto com quem o tem.

O Napster morreu quando encerraram os seus servidores, mas com uma DHT a rede deixa de depender de um computador central que registe quem tem quais ficheiros em partilha. Graças aos esforços da indústria discográfica, que motivaram o trabalho gratuito de muitos programadores, agora a RIAA pode fechar os servidores e trackers que quiserem. Já não são necessários.

Para os poucos leitores que tiveram paciência de ler este post até aqui, deixo uma modesta recompensa. Agora quando carregarem no botão Kad do eMule ou repararem no plugin Distributed DB do Vuze já sabem o que é. O que é mais que a grande maioria dos mapinetas que ainda andam a tentar fechar servidores e páginas da Internet, julgando que isso faz alguma coisa às redes de partilha.

* Este é um hash muito pobrezinho, só para explicar a ideia. Se quiserem ver como é um mais a sério, a Wikipedia tem artigos sobre os Secure hash algorithms e os Message digest algorithms, por exemplo.

Domingo, Novembro 01, 2009

Treta da semana: Centro Lusitano de Unificação Cultural

O Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC) é uma associação que tem por objectivo nada menos que «estabelecer em bases sólidas e correctas uma Biosofia - Sabedoria da Vida - abarcando todos os campos de pensamento, de actividade e de esforço humano, nomeadamente filosóficos, científicos, religiosos, políticos, sociais, pedagógicos, artísticos e éticos.» Com um objectivo tão ambicioso, não admira que estas pessoas estejam a sondar o insondável e a responder ao irrespondível. Sabem, por exemplo, que de Deus «ciclicamente promana um raio (um fragmento da sua inesgotável e perpétua Essência) que dá origem a todos os Universos em manifestação» e que «existem universos físicos com matéria mais velha, digamos assim, com maior número de anos de evolução, e que possuem elementos químicos ainda não gerados nesta». Sabem também interpretar correctamente os textos sagrados. Ao contrário de muitos que, por ignorância, acham que a Bíblia foi inspirada por Deus, no CLUC sabe-se que «Jeová é um nome atribuído ao Espírito de Raça do povo judeu, isto é, a uma entidade suprafísica, do Reino Dévico (um deus mas, não, Deus), que tutela (e, ao mesmo tempo, se alimenta com) as energias do referido povo.»(2) Fica assim corrigida mais uma leitura demasiado literalista do Antigo Testamento.

Aos que não foram iniciados no esoterismo pode ocorrer perguntar como sabem estes senhores tanta coisa acerca do que promana de Deus, dos outros universos, de quem é quem no Reino Dévico e assim. Mas aos iniciados não ocorre perguntar. Os estudiosos estudam e, como estudam, logo sabem. É assim que isto funciona e quem disser o contrário é ignorante. O presidente do CLUC explica bem isto. Ou, ainda melhor que explicar, não explica. Interpreta. Num texto intitulado «Esoterismo?», José Manuel Anacleto afirma que o verdadeiro esoterismo, como o verdadeiro escocês, não é superstição nem crendice, negócio, sensacionalismo, charlatanice, puerilidades, alienação ou autocentramento. Não fica claro o que é. Mas deve ser bom:

«um conjunto sistemático e coerente de princípios e de valores mais abarcantes; uma Sabedoria Universal que integra, fundamenta e sintetiza as múltiplas expressões científicas, filosóficas, religiosas, éticas e, mesmo, estéticas...[etc]»(3)

Além da investigação, o CLUC ministra cursos de ciência esotérica, como «A Árvore da Vida e as 10 Sephiroth Cabalísticas» e «O Cristianismo à Luz da Sabedoria Esotérica» (4). E, em Junho de cada ano, celebram o Ritual da Circulação de Luz, «uma cerimónia ritualística e um trabalho de irradiação espiritual, que constituem um evento mundial único e de capital importância nesta época.»(5)

Isto demonstra cabalmente como o estudo legítimo do espiritual e do divino se distingue da superstição, crendice e charlatanice. Primeiro, é um estudo. Não é apenas por crença que nos falam de outros elementos químicos em universos mais antigos e que os universos são criados por raios que saem regularmente de Deus. Dizem-no porque sabem. Porque estudam estas coisas. É a sério.

Depois, afirmam claramente que isto não é superstição nem charlatanice. Ora, se fosse, claro está, não iam dizer que não era. E há que tratar de forma diferente aquilo que (dizem que) é diferente.

Finalmente, dizem defender um conjunto coerente e sistemático de princípios. Ainda por cima, segundo eles, mais sofisticado que os outros. Certamente que tudo o que é coerente, sistemático e sofisticado tem mesmo de ser verdade. Se não fosse assim andava por aí muita gente a acreditar em tretas...

1- CLUC, Acerca do Centro Lusitano
2- CLUC, Perguntas com Resposta
3- CLUC, Esoterismo?
4- CLUC, Cursos de Ciência Esotérica
5- CLUC, Ritual da Circulação de Luz

Ken Lee

O grande êxito do Ídolos búlgaro. Sem dúvida, tulibu dibu douchoo.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

De novo a interpretação.

O Alfredo Dinis, depois de algumas considerações sobre mim, que agradeço, aponta que «O que está em causa no ‘caso Saramago’ é a interpretação da Bíblia», acrescentando que a minha «insistência em que tudo na religião e, em particular no cristianismo, é mera opinião, é mera subjectividade, ignora que qualquer texto tem que ser interpretado de acordo com alguns parâmetros objectivos: estilo literário, época de composição, modo de composição, contexto cultural em que surgiu, significado dos conceitos utilizados no espaço cultural a que pertencem originalmente, etc. Nada disto é subjectivo.»(1)

Concordo que uma interpretação de um texto é apenas tão fiável quão relevantes forem os parâmetros em que se baseou. Mas estes atributos do texto são insuficientes para a maioria das conclusões que os católicos defendem. O post anterior ao do Alfredo, do Miguel Pedro Melo, dá um exemplo: «Foi em Jericó que Jesus curou o cego Bartimeu |Lc. 18, 35|.»(2) Nem o estilo literário, nem a época de composição, nem o modo, contexto cultural ou significado justificam concluir que Jesus realmente curou o cego Bartimeu. Porque o problema não é apenas determinar o significado do texto ou a intenção do autor. É aferir a sua correspondência à realidade. Apesar da insistência do Alfredo, ainda suspeito que os cristãos consideram verídicos estes relatos por razões meramente subjectivas e especulativas. A análise do texto, por muito objectiva que seja, não permite saber se o que lá está escrito é verdade.

Este problema é menos grave com católicos que com fundamentalistas. Como o Alfredo apontou, os católicos cedem quando as evidências em contrário são suficientemente fortes. O correcto seria aceitar como verdade apenas aquilo para o qual essa é a hipótese mais plausível mas, como o post do Miguel Melo também ilustra, este problema é mitigado por os católicos mais esclarecidos de hoje preferirem focar apenas aspectos éticos, morais e religiosos. Salvo algumas excepções importantes, os últimos séculos ensinaram os católicos a não insistir em matérias de facto. No entanto, o “caso Saramago” foi precisamente sobre a moral da Bíblia. Saramago não disse que a Bíblia era um manual de erros factuais. Disse que é um manual de maus costumes. Por exemplo, o Deuteronómio estipula que os filhos desobedientes devem ser apedrejados até à morte e que os soldados vitoriosos podem raptar mulheres que lhes agradem de entre os povos derrotados. Isto, parece-me indiscutível, eram maus costumes.

Dizem os entendidos que é preciso considerar o «contexto cultural em que surgiu» cada uma destas recomendações e, por isso, não se pode interpretá-las de forma literal. Isto é uma contradição porque, no contexto cultural em que surgiram, estas normas eram para ser levadas à letra. Era a lei. E ainda há hoje quem pratique abominações destas. A menos que no hebraico original “apedrejar até à morte” quisesse dizer “uma semana sem ver televisão”, não há interpretação que safe estas partes da Bíblia. São maus costumes. São exemplo daquilo que há de pior na humanidade: a capacidade de exaltar o mal como virtude.

Queixa-se o Alfredo que «Se a Igreja Católica nada muda, é acusada de imobilismo, de falta de liberdade de investigação, de espírito crítico, etc. Se muda, pergunta-se: quem lhe deu o direito de mudar?» Mas as histórias do antigo testamento foram consideradas sagradas porque eram a Palavra de Deus. Não foi por serem metáforas bonitas. Eram regras para se obedecer, relatos de como ele criou o mundo e afogou toda a gente e eram um aviso claro a quem o aborrecesse. A Igreja Católica manda agora interpretar literalmente umas partes, pelo contexto histórico outras e pelo estilo umas terceiras, tudo isto em função do que serve a sua doutrina, chamando ignorantes a quem não concorde com estas escolhas e recusando-se admitir que, desta forma, deixa de haver razão para considerar a Bíblia um livro diferente dos outros. Isso é mais arrogância que espírito crítico.

A raiz deste problema é que, como qualquer religião, o catolicismo assenta em “factos” inventados pelos crentes. Para os católicos Jesus curou cegos com milagres, nasceu de uma virgem e ressuscitou. Para muitos protestantes, também Jonas viveu três dias na barriga de um peixe e Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho. Os católicos dizem que acreditar nisso é ser ignorante, mas a verdade é que nenhuma destas crenças tem fundamento. Rejeitam o feito de Jonas e aceitam a virgindade de Maria apenas porque querem, porque são alegações igualmente implausíveis.

Passa-se o mesmo com as crenças mais fundamentais do cristianismo. Não há evidências que Jesus era Deus, que temos alma, que há vida depois da morte ou que a Bíblia é mais que os outros livros. É especulação sem fundamento em que só se acredita por razões subjectivas. Daí o contorcionismo, pouco honesto, que vende como milagre aquilo que ainda não se refutou e como metáfora o que já se sabe ser disparate. E que disfarça os maus costumes com alusões vagas ao estilo literário ou contexto histórico. Como se isso desculpasse Deus de ter posto na cabeça de alguém a ideia de matar crianças à pedrada.

Só será legítimo aos católicos chamar conhecimento à forma como interpretam a Bíblia quando a interpretarem como qualquer outro texto, distinguindo factos e ficção pelas evidências em vez de pelo que gostariam que fosse verdade. Enquanto subordinarem os seus critérios alegadamente objectivos a crenças sem fundamento não podem apontar o resultado como conhecimento. É apenas fé.

1- Alfredo Dinis, Aprendemos alguma coisa com o ‘Caso Saramago?’
2- Miguel Lemos, da hostilidade à hospitalidade, da cegueira ao seguimento

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

E física sem hermenêuticas.

Não quis juntar este ao do post anterior, apesar de o ter encontrado no mesmo sítio*. É uma palestra do Lawrence Krauss sobre cosmologia. Quando tiverem uma hora para ver televisão, vejam isto. Seja o que for que esteja a dar, isto é de certeza melhor.



Uma citação para guardar, e emoldurar: «Knowing the answer means nothing. Testing your knowledge means everything.» (aos 24m e 40s).

*Pharyngula.

A hermenêutica da física.

Não são só os livros sagrados que podem ser interpretados à luz de uma ou outra fé. Também os manuais de física podem ser sujeitos a este tratamento. E com resultados semelhantes...



Via Pharyngula, onde aconselho que assistam ao antídoto.