Sábado, Novembro 28, 2009

O negócio que se foi.

Em Julho o presidente da ASSOFT queixou-se da luta «até à data desigual, entre o valor da Propriedade Intelectual e da Cultura (que tantas batalhas tem travado desde o século XIX para se impor e conseguir criar condições para que a produção cultural possa evoluir e acontecer) e a Pirataria»(1). Mas não parece que as condições para a produção cultural tenham piorado com a partilha de informação. A investigação científica – e a ciência é uma parte importante da nossa cultura – tem beneficiado muito desta tecnologia. A educação também, e não se preserva nem se fomenta a cultura sem educação. A cultura tem sido estimulada pelo acesso à informação, a troca livre de ideias e pela criação cultural amadora, não no sentido de não ser remunerada mas no sentido de ser por gosto em vez de por negócio. Se a Cultura, com maiúscula, for o conhecimento e ideias cultivados na sociedade, hoje está melhor que nunca. E mesmo restringindo o termo ao negócio da música e cinema, também está bem de saúde. Recordes de bilheteiras todos os anos, cada vez mais dinheiro em concertos e a inovação constante nas formas de ligar os autores aos seus clientes. Mas é disto que alguns se queixam.

O filme «Ink» estreou em Janeiro no festival internacional de Santa Barbara. Sendo uma produção independente, não conseguiram que fosse exibido em quase mais lado nenhum. Nem têm dinheiro para o publicitar. Segundo Kiowa Williams, um dos produtores, a dificuldade foi as grandes distribuidoras de «Hollywood alegarem não saber como comercializar o filme ou que não tem audiência». Mas este mês alguém pôs uma cópia do filme na rede BitTorrent. Em poucos dias centenas de milhares de pessoas já o tinham visto e saltou para 16º lugar em popularidade na International Movie Database (2), um empurrão enorme às vendas do DVD.

«Se isto é o melhor que podia ter acontecido ao nosso filme? Absolutamente! Era impossível que tanta gente descobrisse o filme de outra forma, ou que o nosso MovieMeter na IMDb tivesse disparado uns espantosos 81,000% depois de poucos dias de actividade em sites de torrent. O que Hollywood contabilizaria como dólares perdidos nós contamos como fãs ganhos»(2)

Se bem que este sistema seja bom para quem cria obras de qualidade, que assim chegam a quem as aprecia, não é bom para a integração vertical que domina a salsicharia a que chamam "indústria cultural". Para vender Spice Girls às rodelas de plástico é preciso controlar a distribuição, não só para cobrar a cada ouvido mas também para não perder o investimento em publicidade só por surgir algum concorrente menos financiado mas com mais talento.

Mas o pior é para os intermediários. Aqueles que não acrescentam valor ao produto e apenas lucram cobrando o acesso. Esses estão tramados. Um exemplo nacional são os clubes de vídeo. A Joana Pereira Bastos, no Expresso, escreveu «Videoclubes não param de falir devido à pirataria de filmes. Governo admite cortar acesso à Internet a cibernautas que façam downloads ilegais.»(3) É pena que a maioria dos jornalistas ainda não tenha percebido que não são os downloads que são ilegais. Nem é claro que sejam, nem se tem processado pessoas por fazer download, nem há forma prática de os impedir. Todas as medidas legais até agora têm visado os uploads, que é o contrário. Partilhar é que é ilegal. Ninguém vai preso por ver vídeos do YouTube. O que querem é cortar o acesso a quem os puser lá.

Mas apesar disto a jornalista acerta no título. «Internet arrasa clubes de vídeo». Não é a "pirataria". É a Internet mesmo. Os clubes de vídeo estão a ir à falência simplesmente porque não servem para nada. Fitas e rodelas de plástico já não são a melhor forma de distribuir filmes. A fibra óptica é que é. Seja pelo download ou pelo Vídeo on Demand (VOD), tem-se o filme em casa sem precisar andar à procura na loja. O Paulo Santos, da FEVIP, explica que o VOD não é problema por causa dos «custos de manutenção do sistema tecnológico associado ao VOD, nomeadamente à digitalização e armazenamento digital das obras»(3). Isto parece um disparate porque os "piratas" fazem exactamente o mesmo – digitalização, armazenamento e distribuição – a custo zero. Mas não é completamente disparatado porque, para cobrar o acesso, é preciso centralizar a distribuição e isso já tem custos.

Infelizmente para o Paulo Santos, clubes de vídeo e mapinetas, as pessoas não são idiotas e percebem que a distribuição em si é gratuita. É por isso que há "pirataria" na Internet. Todos os "custos" de distribuir filmes e músicas vêm de alguém meter dinheiro ao bolso. Que os autores lucrem com a obra todos concordam. Por isso cada vez se paga mais por concertos ou directamente aos criadores. E há serviços que vale a pena pagar. Daí os recordes de bilheteira nos cinemas. Mas os proprietários de clubes de vídeo e negócios afins têm de aprender com a história. Os águadeiros que conseguiram continuar a vender água puseram-na em embalagens mais atraentes ou arranjaram outras formas de convencer os clientes a comprar. Os que tentaram salvar o negócio exigindo que se proibisse a água canalizada não se safaram.

Mapinetas, sec. XIX
Imagem copiada de Profissões Antigas.

1- TEK, Partilha ilegal de ficheiros na Internet: afinal onde está o negócio?
2- TorrentFreak, 10-11-2009, Indie Movie Explodes on BitTorrent, Makers Bless Piracy
3- Expresso, 25-11-09, Internet arrasa clubes de vídeo, via MAPiNET

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Treta da semana: Tamichoy.

O Pedro Choy, numa curta intervenção para o Diário de Notícias (1), explicou porque é que a medicina chinesa é mais eficaz no combate à gripe A. «Em critérios de medicina chinesa, não é muito importante qual é o vírus. O que interessa são as famílias de substâncias, no sentido em que aquilo em que a medicina chinesa difere da medicina convencional é que, em medicina convencional, é o medicamento que luta contra a doença. Em medicina chinesa é o corpo, é o organismo que luta contra a doença. O que nós fazemos é estimular o organismo a lutar contra a doença e não é muito diferente lutar contra o vírus da gripe ou lutar contra outro primo do vírus da gripe.»

Este é mais um exemplo do problema dos "níveis de realidade". Há ervas que têm efeitos medicinais ou compostos importantes para a síntese de medicamentos. O Tamiflu, por exemplo, é sintetizado a partir do ácido shikimico, normalmente extraído do anis-estrelado (Illicium verum), planta natural da China e usada também na medicina tradicional chinesa. Mas os efeitos anti-virais de uma planta ou droga não dependem da ideologia que motiva a sua aplicação. Apesar dos «critérios de medicina chinesa», na realidade o tipo de vírus importa bastante. Enquanto que a maioria das estirpes da gripe A ainda é sensível ao Tamiflu, quase todas as estirpes da gripe sazonal de 2008 que restam são resistentes a esta droga. Esta evolução de variantes resistentes ocorre, e ocorrerá sempre, mesmo apesar dos critérios do Pedro Choy.

Segundo o Pedro Choy, parece que a grande diferença entre a medicina chinesa e a medicina ocidental é que quando estamos a ser tratados por um médico do ocidente o nosso corpo deixa de combater as doenças. E parece também que o Pedro Choy nunca ouviu falar em vacinas. O que é pena, porque a vacinação é a arma mais forte que temos contra os vírus, da gripe ou quaisquer outros.

O que uma vacina faz é precisamente «estimular o organismo a lutar contra a doença». Durante séculos os chineses tentaram este efeito manipulando, com ervas e agulhas, o Chi das pessoas. Infelizmente, esta substância fictícia pouco ou nada fez pela saúde e esperança de vida, que só melhoraram significativamente com a medicina moderna. A medicina tradicional chinesa nunca se lembrou de injectar o paciente com antigénios porque não sabia que as doenças eram causadas por microorganismos em vez dos supostos desequilíbrios energéticos. O resultado foi que até 1950 a esperança média de vida na China se manteve abaixo dos 40 anos. Hoje, com vacinas e antibióticos, é de 73 anos (2).

Esta ignorância já não é desculpa e é um erro trágico julgar que estes "critérios" podem coexistir com a ciência moderna. Para estimular o corpo a lutar contra uma doença é preciso ensinar o sistema imunitário a identificar essa doença. Isto não se consegue com cházinhos nem a espetar agulhas, e de nada serve inventar critérios porque o vírus não lhes liga. O que se tem de fazer é expor o sistema imunitário aos antigénios daquele microorganismo.

Uma premissa das medicinas alternativas, bem como das astrologias, vidências, bruxarias, teologias e afins, é que a ciência pode ficar isolada, fechada numa caixa para não incomodar ninguém. Dentro dessa caixa qualquer hipótese só merece ser considerada verdadeira ao fim de um escrupuloso processo de selecção, de confronto com alternativas e dados que a favoreçam sobre todas as suas concorrentes. Mas fora da caixa é como se quiser. Ao Pedro Choy basta enunciar que, pelos critérios da sua medicina, o vírus não importa e o que ele faz ajuda o corpo a combater a doença. Se a ciência não encontrar evidências para isso, ou até tiver dados que indicam o contrário, o Pedro dirá que são critérios diferentes. Dentro da caixinha a realidade é uma. Fora é outra. Outras. Muitas. As que se quiser. E dizem que não há qualquer contradição.

1- DN, 20-11-2009, Pedro Choy: Medicina chinesa tem melhores resultados contra gripe A do que Tamiflu
2- China Profile, http://www.china-profile.com/data/ani_WPP2008_TFR-L0_1.htm

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Escala.

Uma animação interactiva que dá uma boa ideia dos tamanhos de várias coisas, desde um grão de café ao átomo de carbono:
Cell Size and Scale, Genetics Science Learning, The University of Utah.

Via Talking Squid.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

A Origem das Espécies

foi publicada há 150 anos, no dia 24 de Novembro de 1859. Com hoje tenho pouco tempo, deixo apenas um post rápido acerca do problema principal que esta teoria tem enfrentado ao longo de século e meio. O receio que muita gente tem de um dia a compreender.

O Marcos Sabino diz que a teoria da evolução não pode ser refutada (apesar de estar constantemente a alegar haver evidências que a refutam), porque

«Se um dado organismo evolui ao longo dos milhões de anos, isso prova evolução, quer estejamos a falar apenas de variação quer de mudança de tipo de organismo. Se um dado organismo mantém a sua morfologia ao longo dos milhões de anos, por não ter sentido pressões selectivas do ambiente, isso prova evolução (ou não a refuta, se preferir). Se um dado organismo mantém a sua morfologia ao longo dos milhões de anos, apesar das mudanças drásticas no ambiente, isso prova evolução (ou não a refuta, se preferir)»(1)

Como é deprimente costume, isto confunde os dados que a teoria da evolução explica com os testes que fazemos a essas explicações. Que algumas características mudam de geração para geração e outras não é algo que constatamos na natureza. Faz parte do que queremos explicar. Por exemplo, observamos que em riachos sem predadores os guppies machos têm cores vivas (Poecilia reticulata), mas em riachos onde coexistam com o acará azul (Aequidens pulcher), que come guppies, os machos têm cores que se confundem muito mais com o fundo.

Ao contrário do que o Marcos sugere, uma teoria que explique ambas estas observações, tão dispares, não é uma má teoria nem necessariamente frouxa, permitindo tudo. A teoria da evolução explica isto se assumirmos duas forças selectivas pressionando os guppies machos. Por um lado, um maior sucesso reprodutivo para os machos que melhor conseguirem chamar a atenção das fêmeas. Por outro lado, menor sucesso reprodutivo para os machos que chamarem a atenção dos predadores.

Isto é a explicação. A prova vem depois, confrontando previsões com dados observados. Por exemplo, medindo directamente a preferência dos predadores por guppies mais coloridos (2). Ou criando populações de guppies em ambientes controlados, escolhendo o tipo de fundo e de predadores e medindo a evolução da coloração dos machos ao longo do tempo em função dessas condições (3). E quando com estes testes conseguimos suporte para aqueles elementos do modelo que a teoria da evolução exige, e quando isso acontece uma vez, e outra, e milhares de outras, é aí que começamos a considerar este mecanismo de evolução um facto tão fundamentado como a gravidade ou a existência da Lua.

E é claro que é refutável. Como disse Haldane, basta um fóssil de coelho num estrato Cambriano. Como este, mas a sério.

1- Comentário em O âmbito da ciência.
2- Jean-Guy J. Godin and Heather E. McDonough, Predator preference for brightly colored males in the guppy: a viability cost for a sexually selected trait, Behavioral Ecology Vol. 14 No. 2: 194-200.
3- John A. Endler, Natural Selection on Color Patterns in Poecilia reticulata, Evolution, Vol. 34, No. 1 (Jan., 1980), pp. 76-91

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Esclarecimento.

Acerca do último post, e considerando alguns comentários, queria deixar mais claro o que estava a dizer. O âmbito da ciência é aquilo acerca do qual a ciência se pronuncia. E este, proponho, inclui todas as afirmações objectivas acerca da realidade e aquelas questões acerca da realidade cujas respostas se pode conhecer. Mais sobre isto adiante. Mas primeiro quero esclarecer que a distinção entre o que está dentro e fora do âmbito da ciência não é igual à distinção entre o que é científico e o que não é científico, porque esta última pode ter um carácter normativo.

Quando dizemos que uma hipótese não é científica queremos muitas vezes dizer que é má prática científica aceitá-la como verdadeira. Por exemplo, dizer que não é científico acreditar que gatos pretos dão azar é dizer que, com o conhecimento que temos, não se justifica concluir tal coisa. E, precisamente por isso, a hipótese que os gatos pretos dão azar está no âmbito da ciência. É uma hipótese em relação à qual a ciência se pode pronunciar, declarando-a infundada por falta de dados que a suportem.

O que está fora do âmbito da ciência não é aquilo que a ciência consegue rejeitar com justificação mas aquilo em relação ao qual a ciência não se consegue pronunciar. A ciência é a procura de conhecimento, de proposições cuja correspondência à realidade podemos justificar. Por isso exclui do seu domínio afirmações que não sejam descritivas, como "não devemos mentir", porque estas não correspondem a qualquer aspecto da realidade. E exclui perguntas como "a hóstia transubstancia-se em Jesus sem mudar nada na sua aparência?" porque não se pode identificar a resposta correcta a essas perguntas e, por isso, não conduzem a qualquer conhecimento.

Esta última categoria é especialmente importante pois muitos julgam que a impossibilidade da ciência identificar a resposta correcta implica que se pode dar qualquer resposta sem se contradizer a ciência. O que é um disparate. Qualquer modelo científico da missa católica tem de se reger pelas evidências, e estas em tudo indicam que a hóstia é tão hóstia no fim como no início. Por isso afirmar que a hóstia se transubstanciou em Jesus é contradizer a ciência, mesmo que a ciência não queira perder tempo com essa pergunta.

Quanto à contradição entre a teologia católica e a teoria da evolução, deixo que outros com mais autoridade falem por mim. A Comissão Teológica Internacional, presidida por Joseph Ratzinger:

«A teologia católica afirma que o aparecimento dos primeiros membros da espécie humana (indivíduos isolados ou populações) representa um evento que não se presta a uma explicação puramente natural e que se pode adequadamente atribuir à intervenção divina.»(1)

E Charles Darwin, em «The Descent of Man»

«Numa série de formas progredindo imperceptivelmente de criaturas como símios até ao homem como ele agora existe, é impossível fixar qualquer ponto definido a partir do qual o termo "homem" deva ser usado.»(2)

Se isto não é contradição o Deus Único é uns dois ou três...

1- The July 2004 Vatican Statement on Creation and Evolution, Communion and Stewardship: Human Persons Created in the Image of God
2- Darwin Online, The Descent of Man

Domingo, Novembro 22, 2009

O âmbito da ciência.

Há quem julgue que a ciência é um jogo com regras arbitrárias e que astrologias, religiões ou medicinas alternativas, conforme o gosto, estão para a ciência como o andebol para o xadrez. São jogos com regras diferentes mas que não interferem nem se contradizem. Isto é treta. A ciência não é um jogo com regras que possamos escolher como quisermos. É o nome que damos às formas fiáveis de obter conhecimento. Não serve para expressar o que gostaríamos que fosse verdade mas para descobrir o que é verdade. E isso não é à nossa escolha.

É certo que algumas perguntas (ainda?) estão fora do âmbito da ciência. "O que é o bem?", por exemplo. Mas isto não se deve a um limite arbitrário de jurisdições. Não é pelas regras do jogo. Deve-se apenas à falta de critérios para distinguir respostas certas e respostas erradas. Isto já aconteceu com muitas perguntas que hoje consideramos científicas, da composição do Sol à origem das espécies, e que estiveram na filosofia até se descobrir como avaliar as respostas. Se há quinhentos anos atrás disséssemos a um filósofo que o universo tem treze mil milhões de anos de idade ele ficava na mesma porque não tinha forma de testar essa hipótese. Nesse tempo só se podia discutir estas coisas com argumentos e especulação, e só mais tarde foi possível começar a testar hipóteses. Só então essas perguntas passaram a ser científicas.

Mas não há respostas fora do âmbito da ciência. A ciência não responde a algo como "o que é o bem?" por não se conseguir distinguir a resposta correcta das incorrectas. Mas, precisamente por isso, rejeita como infundada qualquer resposta a esta pergunta. Se dissermos que o bem é justiça, liberdade, amor ou um pastel de nata, a ciência vai dizer que não se justifica declarar uma destas alternativas como mais correcta que as outras. A mesma falta de critérios que põe a pergunta fora do âmbito da ciência leva a ciência a rejeitar a resposta como infundada.

Infelizmente, destas premissas correctas – que a ciência não responde a tudo e que há perguntas fora do âmbito da ciência – infere-se erradamente que se pode responder fora do âmbito da ciência sem contradizer a ciência. Este erro deve-se à confusão entre a hipótese como pergunta, por exemplo "será que o bem é justiça?", e a hipótese apresentada como uma resposta ou afirmação: "o bem é a justiça." Porque qualquer afirmação factual cai numa de três categorias. Se há evidências que a favorecem em detrimento das alternativas, justifica-se aceitá-la como verdadeira. Se as evidências suportam melhor uma alternativa, deve-se rejeitar a hipótese em favor dessa outra. E se não há dados que distingam as alternativas não se deve defender nenhuma como mais correcta que as outras. Por isso, à pergunta "será que o bem é justiça?" a ciência não pode responder nem sim nem não porque não tem um critério objectivo para avaliar estas respostas. Mas a afirmação "o bem é justiça" a ciência pode classificar: é uma afirmação para a qual não há evidências e que, enquanto afirmação sobre os factos, não deve ser considerada mais verdadeira que as alternativas*.

O Nuno Gaspar afirmou que eu estou «mais [interessado] em discutir posições religiosas do que em afirmar um discurso científico independente delas.»(1) Mas eu não estou interessado em discutir as questões religiosas. E só as questões são religiosas. Perguntar sobre as intenções de deus, a natureza da alma ou se usar o preservativo vai contra o dom-de-si-mesmo do Amor enquanto tal é pouco interessante. Tal como a pergunta "poderá ter havido alguma intervenção sobrenatural na evolução humana?", estão fora do âmbito da ciência. Podem ser discutidas por filósofos, teólogos ou qualquer pessoa à espera de vez no barbeiro mas não há forma de lhes identificar a resposta certa. Por isso não é de esperar qualquer conclusão.

Mas se, por um lado, é fácil inventar perguntas que a ciência não consegue responder, por outro lado isto não permite defender qualquer disparate alegando que está fora da ciência. A física não consegue responder à pergunta "há duendes invisíveis a manipular a interacção de partículas?" porque não tem forma de determinar se sim ou se não. Mas se afirmarmos que a física de partículas precisa de considerar os duendes invisíveis para que seja duendologicamente correcta, a física pode, e deve, rejeitar esta hipótese como infundada porque nada justifica este acréscimo aos modelos que temos. E dizer que a duendologia sai do âmbito da ciência não adianta de nada.

É isto que acontece com a teoria da evolução e a teologia católica. As perguntas por deuses e almas são teológicas e estão fora da ciência. Mas as respostas já não. Ao afirmar que «a emergência dos primeiros membros da espécie humana representa um acontecimento que não é susceptível de uma explicação puramente natural»(2), os teólogos caem no meio da ciência, que avalia todas as afirmações acerca da realidade à luz das evidências. E esta afirmação a ciência rejeita por razões perfeitamente científicas: não há nada de especial na nossa espécie que exija colar um apêndice de sobrenatural à teoria da evolução. A teoria está bem como está e a alma do Homo erectus faz tanta falta como os duendes das partículas.

* Nota: em retrospectiva, talvez este exemplo não tenha sido bom porque a ideia do bem é normativa, e isso sai do âmbito da ciência. Mas penso que basta ter em conta que estou a dar o exemplo de afirmações acerca daquilo que o bem é, tratando as como afirmações de facto, em contraste com dizer o que o bem deveria ser.

1- Comentário em Darwin na FCT: 24 de Novembro.
2- Communion and Stewardship: Human Persons Created in the Image of God

Sábado, Novembro 21, 2009

Darwin na FCT: 24 de Novembro.

Na próxima terça feira vai haver um debate aberto acerca da teoria da evolução, celebrando os 150 anos da edição d'A Origem das Espécies. O debate tem por título «Da ‘Origem ’ aos Nossos Dias: As Ideias Revolucionárias de Darwin Ainda Nos Perturbam?», vai ser moderado pelo Fernando Catarino, professor jubilado da FC/UL e ex-director do Jardim Botânico, e por mim. Para quem quiser aparecer, será às 14:00h no auditório da biblioteca da FCT.

O Álvaro Fonseca, um dos organizadores deste ciclo de conferências e debates sobre Darwin na FCT, pediu que enviássemos sugestões de tópicos para o debate. Abaixo vai a minha.

Para mais informações sobre estes eventos podem consultar o site: A rEvolução Darwiniana.

Considero que a mudança na forma de pensar acerca das espécies foi o contributo mais importante de Darwin. Antes de Darwin, as espécies eram vistas como tipos naturais em que cada individuo manifestava imperfeitamente a essência da sua espécie. Este essencialismo, como Ernst Mayr apontou, impedia que se compreendesse a evolução correctamente. Teorias da evolução como a de Lamarck, por exemplo, exigiam transformação. Assumiam que a forma de algo se tornava numa forma diferente, o que criava problemas para a transição entre espécies. Podemos imaginar a girafa ficando com o pescoço cada vez maior ao tentar chegar às folhas mais altas. Mas não se consegue imaginar um Morganucodon, um mamífero de 10cm que viveu no Jurássico, a transformar-se numa girafa, num leão ou numa baleia por muito que se estique e se esforce.

Infelizmente, este pensamento tipológico ainda está vivo hoje em dia. Não só no criacionismo, que conta como um certo deus criou cada organismo segundo o molde da sua espécie, mas também na popularização da evolução e em ideias religiosas menos fundamentalistas. Uma forma conhecida de representar a evolução é a animação onde um peixe ganha pernas, arrasta-se em terra como anfíbio, transforma-se num réptil, num mamífero, num primata e, finalmente se torna humano. E a igreja católica defende que, num momento impossível de identificar, uma intervenção divina transformou um animal em Homem. Esta ideia da evolução como um processo de transformação, em que algo se torna essencialmente diferente daquilo que era, é precisamente o contrário do que diz a teoria da evolução.

Na teoria que Darwin propôs não há transformação. Nenhuma coisa muda de forma ao longo da sua existência. O que acontece é que os filhos são parecidos com os pais, mas não são iguais. O que muda, com o passar das gerações, é a distribuição de características nas populações de organismos. Mudam as estatísticas, como médias, variâncias e modas. Nada disto caracteriza uma essência da espécie ou constitui um tipo, e nada precisa de se transformar para que, passados duzentos milhões de anos, os descendentes do Morganucodon sejam morcegos, baleias ou pessoas. A evolução não é um processo de transformação. É um processo de substituição de organismos pelos seus descendentes.

Sem compreender isto é impossível compreender a teoria da evolução. E, parece-me, muita gente tem dificuldade em ver as coisas desta maneira. Parte da culpa talvez seja do ensino da biologia nas escolas, que insiste demais, e demasiado cedo, na classificação dos organismos e de menos, e demasiado tarde, na ideia que as populações evoluem. Isto deixa a falsa impressão que as etiquetas que mentalmente colamos a cada grupo de organismos são mais reais e importantes que o processo que dá origem a essas populações. Mas a maior culpada é a evolução em si. Deu-nos um cérebro que é excelente a classificar coisas e arrumá-las de acordo com tipos e essências mas que tem muita dificuldade em compreender o longo e lento processo que, em quatro mil milhões de anos, espalhou por toda a Terra a imensidão de descendentes de um punhado de reacções químicas.

Editado às 18:28. Tinha-me esquecido da foto do Morganucodon.

Morgie