O negócio que se foi.
Em Julho o presidente da ASSOFT queixou-se da luta «até à data desigual, entre o valor da Propriedade Intelectual e da Cultura (que tantas batalhas tem travado desde o século XIX para se impor e conseguir criar condições para que a produção cultural possa evoluir e acontecer) e a Pirataria»(1). Mas não parece que as condições para a produção cultural tenham piorado com a partilha de informação. A investigação científica – e a ciência é uma parte importante da nossa cultura – tem beneficiado muito desta tecnologia. A educação também, e não se preserva nem se fomenta a cultura sem educação. A cultura tem sido estimulada pelo acesso à informação, a troca livre de ideias e pela criação cultural amadora, não no sentido de não ser remunerada mas no sentido de ser por gosto em vez de por negócio. Se a Cultura, com maiúscula, for o conhecimento e ideias cultivados na sociedade, hoje está melhor que nunca. E mesmo restringindo o termo ao negócio da música e cinema, também está bem de saúde. Recordes de bilheteiras todos os anos, cada vez mais dinheiro em concertos e a inovação constante nas formas de ligar os autores aos seus clientes. Mas é disto que alguns se queixam.
O filme «Ink» estreou em Janeiro no festival internacional de Santa Barbara. Sendo uma produção independente, não conseguiram que fosse exibido em quase mais lado nenhum. Nem têm dinheiro para o publicitar. Segundo Kiowa Williams, um dos produtores, a dificuldade foi as grandes distribuidoras de «Hollywood alegarem não saber como comercializar o filme ou que não tem audiência». Mas este mês alguém pôs uma cópia do filme na rede BitTorrent. Em poucos dias centenas de milhares de pessoas já o tinham visto e saltou para 16º lugar em popularidade na International Movie Database (2), um empurrão enorme às vendas do DVD.
«Se isto é o melhor que podia ter acontecido ao nosso filme? Absolutamente! Era impossível que tanta gente descobrisse o filme de outra forma, ou que o nosso MovieMeter na IMDb tivesse disparado uns espantosos 81,000% depois de poucos dias de actividade em sites de torrent. O que Hollywood contabilizaria como dólares perdidos nós contamos como fãs ganhos»(2)
Se bem que este sistema seja bom para quem cria obras de qualidade, que assim chegam a quem as aprecia, não é bom para a integração vertical que domina a salsicharia a que chamam "indústria cultural". Para vender Spice Girls às rodelas de plástico é preciso controlar a distribuição, não só para cobrar a cada ouvido mas também para não perder o investimento em publicidade só por surgir algum concorrente menos financiado mas com mais talento.
Mas o pior é para os intermediários. Aqueles que não acrescentam valor ao produto e apenas lucram cobrando o acesso. Esses estão tramados. Um exemplo nacional são os clubes de vídeo. A Joana Pereira Bastos, no Expresso, escreveu «Videoclubes não param de falir devido à pirataria de filmes. Governo admite cortar acesso à Internet a cibernautas que façam downloads ilegais.»(3) É pena que a maioria dos jornalistas ainda não tenha percebido que não são os downloads que são ilegais. Nem é claro que sejam, nem se tem processado pessoas por fazer download, nem há forma prática de os impedir. Todas as medidas legais até agora têm visado os uploads, que é o contrário. Partilhar é que é ilegal. Ninguém vai preso por ver vídeos do YouTube. O que querem é cortar o acesso a quem os puser lá.
Mas apesar disto a jornalista acerta no título. «Internet arrasa clubes de vídeo». Não é a "pirataria". É a Internet mesmo. Os clubes de vídeo estão a ir à falência simplesmente porque não servem para nada. Fitas e rodelas de plástico já não são a melhor forma de distribuir filmes. A fibra óptica é que é. Seja pelo download ou pelo Vídeo on Demand (VOD), tem-se o filme em casa sem precisar andar à procura na loja. O Paulo Santos, da FEVIP, explica que o VOD não é problema por causa dos «custos de manutenção do sistema tecnológico associado ao VOD, nomeadamente à digitalização e armazenamento digital das obras»(3). Isto parece um disparate porque os "piratas" fazem exactamente o mesmo – digitalização, armazenamento e distribuição – a custo zero. Mas não é completamente disparatado porque, para cobrar o acesso, é preciso centralizar a distribuição e isso já tem custos.
Infelizmente para o Paulo Santos, clubes de vídeo e mapinetas, as pessoas não são idiotas e percebem que a distribuição em si é gratuita. É por isso que há "pirataria" na Internet. Todos os "custos" de distribuir filmes e músicas vêm de alguém meter dinheiro ao bolso. Que os autores lucrem com a obra todos concordam. Por isso cada vez se paga mais por concertos ou directamente aos criadores. E há serviços que vale a pena pagar. Daí os recordes de bilheteira nos cinemas. Mas os proprietários de clubes de vídeo e negócios afins têm de aprender com a história. Os águadeiros que conseguiram continuar a vender água puseram-na em embalagens mais atraentes ou arranjaram outras formas de convencer os clientes a comprar. Os que tentaram salvar o negócio exigindo que se proibisse a água canalizada não se safaram.

Imagem copiada de Profissões Antigas.
1- TEK, Partilha ilegal de ficheiros na Internet: afinal onde está o negócio?
2- TorrentFreak, 10-11-2009, Indie Movie Explodes on BitTorrent, Makers Bless Piracy
3- Expresso, 25-11-09, Internet arrasa clubes de vídeo, via MAPiNET

